Além da deformidade física, pectus provoca transtornos emocionais

12 de julho de 2016

85% dos pacientes começam a evitar sair de casa para não se expor.

“Por conta do pectus (no meu caso, o excavatum), diversas vezes já me privei e ainda me privo de ir à praia para evitar constrangimentos, pois é irritante perceber o olhar das pessoas”.

Esse é um pequeno trecho do relato do adolescente *Leandro Silva, de 16 anos, de Porto Alegre. Ele é portador de uma deformidade torácica denominada pectus excavatum, que ocorre na parede do tórax devido a um crescimento anormal das cartilagens das costelas. O meio do peito sofre um afundamento (aspecto de “escavado”), o que pode trazer problemas físicos (falta de ar e fadiga, principalmente, pois a deformidade comprime as duas bases pulmonares e desloca o coração para o lado esquerdo), além de alguns transtornos emocionais. A causa ainda é desconhecida, mas sabe-se que atinge 1 a cada 1000 nascidos vivos,a maioria homens.

Conheça os exames mais utilizados para diagnosticar o pectus

Semanalmente, o Hospital das Clínicas da FMUSP recebe de 15 a 18 pacientes de diversas regiões do país. Por conta dos problemas emocionais que o pectus acarreta, há uma fila de espera com mais de 100 pessoas que precisam de tratamento psicológico. A saga que o paciente enfrenta até conseguir um tratamento adequado é longa e permeada de vergonha, sofrimento e muito desconhecimento por parte da família e dos próprios médicos.

“Já consultei um médico e a única recomendação que recebi foi a de aprender a conviver com o problema. Fiquei totalmente decepcionado, principalmente pelo total descaso do doutor. Ele nem sequer pediu exames ou pelo menos fez uma avaliação. Na verdade, ninguém leva em consideração todos os transtornos que isso traz”, diz Leandro.

Dr. José Ribas, médico assistente da unidade de cirurgia torácica do Hospital das Clínicas da FMUSP, explica que quando a criança é pequena, a mãe até tenta saber mais sobre a condição do filho e corre atrás de informações, mas, a única coisa que recebe em troca do médico pediatra é: “olha, mãe, fique tranquila. Na adolescência, isso melhora. Ele vai se acostumar”. Acontece que o pectus é uma condição clínica que não melhora sem tratamento. Então, a criança vai para a escola e começa a notar que o corpo dela é diferente. “As outras crianças também notam, o que pode gerar alguns comentários maldosos”, explica o dr. Ribas.

O tempo vai passando e é com a chegada da adolescência que o problema fica ainda pior. Nada de utilizar roupas leves, somente moletons folgados e com duas, três camisetas, uma em cima da outra. Ir a clubes, praias, praticar alguma atividade física, nem pensar. O verão torna-se uma época muito difícil. Automaticamente, o indivíduo vai se tornando uma pessoa introvertida e ficar em casa torna-se a melhor saída. “É um quadro que atinge 85% dos pacientes. Ele se priva do convívio social, a grande maioria não namora e evita qualquer tipo de relacionamento íntimo”, comenta o especialista.

“A minha preocupação só aumenta. O medo de nunca conseguir fazer a cirurgia, ou, quando conseguir, minha idade não permitir mais. É uma situação horrível, passar dias e noites procurando as melhores alternativas”, lamenta Leandro.

Segundo a psiquiatra Mariana Andrade, que já atendeu alguns pacientes com pectus em seu consultório, o grande problema da reclusão social é que ela pode ocasionar patologias graves. “Há um medo excessivo de se expor e isso pode gerar crises de ansiedade. Ela passa a não aceitar nenhum tipo de convite, por exemplo. Uma pizza na casa dos amigos, viajar, dormir fora, ou seja, essa fobia não tem mais a ver com a deformidade em si, mas com o que pode ocorrer a partir daí. Vira um pensamento obsessivo. A partir desses sintomas, podem surgir patologias secundárias, como a depressão”.

A boa notícia, na verdade, baseada na experiência clínica dos médicos, é que esses sintomas tendem a sumir depois que eles conseguem tratamento adequado. E o melhor:  ao contrário do que se imagina, o tratamento para corrigir a deformidade só exige cirurgia em último caso. Muitas vezes é possível tratar com uso de coletesdispositivos a vácuo, alguns dos quais podem até ser usados em casa pelo próprio paciente.

*O nome foi alterado a pedido do entrevistado.

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